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“Na raiz, o consumo exagerado é o mau da fita” PDF Imprimir e-mail
27-Set-2009

Não, Susana Fonseca, a nova presidente da Quercus, não preconiza o regresso às cavernas. Mas mais não significa melhor e talvez as casas, carros, electrodomésticos e telemóveis que temos sejam já suficientes.

- Quando e em que circunstâncias começou a sua militância ecológica?  - Foi há muito tempo, quando não havia ecopontos, só o vidrão. Na Escola Secundária do Fogueteiro, que eu frequentava, iniciou-se um projecto de recolha selectiva de papel. Havia um caixote à porta da sala dos professores onde se podia colocar o que trazíamos de casa. Os professores, a certa altura, acharam que era muita confusão e resolveram acabar com aquilo. E eu fiquei com um problema nas mãos: tinha papel que sabia agora que podia ser aproveitado mas não tinha onde colocá-lo. Foi aí que tudo começou, apercebi-me de que havia muita coisa que desperdiçávamos e que podia ser aproveitada.  - E depois, na universidade?  - No ISCTE havia o grupo Ambiente, ao qual me associei. Os resíduos continuaram a ser uma grande preocupação. Eu morava no Seixal, em Lisboa já havia ecopontos de embalagens, mas na Margem Sul não. Trazia as minhas embalagens no autocarro e no barco. Tinha uma preocupação grande com o desperdício.  - Como foi o encontro com a Quercus?  - Na universidade enveredei pela área da Sociologia do Ambiente. O meu primeiro trabalho em termos profissionais foi sobre as Organizações Não Governamentais de Ambiente. Contactei várias, inclusive a Quercus, e tentei perceber como é que podia envolver-me mais. Não era sócia nem os meus pais eram activistas em qualquer área. Na altura estava em desenvolvimento o Centro de Informação sobre Resíduos e comecei a colaborar. Depois fui convidada para a direcção, mais tarde assumi a vice-presidência e em Março calhou-me a ‘sorte’ de ser presidente – não é um cargo desejado, as pessoas são normalmente empurradas e todos têm de cumprir a sua sina [risos]. - Em 2010 a Quercus faz 25 anos. Quais foram, neste percurso, os pontos fortes e as fragilidades da associação? - Um dos pontos fortes é a capacidade de abranger várias áreas. Começámos como uma associação mais virada para a conservação da natureza, mas desde o início absorvemos pessoas com formações muito diferentes – engenheiros do ambiente, biólogos... – o que permitiu também desenvolver estratégias diferentes de trabalhar os temas. Outro ponto forte foi assumirmos o objectivo de comunicar e usarmos os meios de comunicação para amplificar a nossa mensagem. - E as fragilidades?  - Não temos conseguido agarrar o público mais jovem, estamos todos a ficar um bocadinho velhotes [risos]. Por outro lado, mesmo com cerca de 20 profissionais, a base da estrutura da Quercus é voluntária e temos, por vezes, dificuldade até em garantir aquelas funções mais básicas de uma organização – ao nível da gestão. Não temos buracos, temos as contas auditadas, porque vamos conseguindo encontrar alguns parceiros que nos têm ajudado. Outra fragilidade é o financiamento para as nossas actividades.  - Quantos sócios tem a Quercus? - Mais de 15 mil registados mas a pagar quotas são, nos melhores anos, quatro mil. Em Portugal as pessoas exigem muito mas, em geral, sabem dar muito pouco. São capazes de nos telefonar ou enviar um e-mail e, se não respondemos no prazo de uma semana, indignam-se mas não são sócios, nem pensam sê-lo, nem imaginam como isso pode ser importante para o nosso trabalho. Também é incapacidade nossa de comunicar essa necessidade de apoio dos sócios.  - De onde vêm, então, os apoios? - Não há financiamento do Governo português. Existem fundos, aos quais nos candidatamos, que vêm da Noruega e há programas comunitários, aos quais também nos candidatamos. O que fazemos é procurar parceiros em entidades privadas. Tem sido positivo porque nos permite ter portas de entrada – se há problemas, deixa de ser preciso passar logo para o comunicado. Outras vezes não é assim. Mas felizmente há a percepção, principalmente em empresas maiores, que cada um tem o seu papel e que em determinados momentos podemos colaborar e noutros estamos de candeias às avessas, como agora com a EDP [construção de barragens].  - Não temem que algumas empresas queiram financiar projectos para tornar verde o que não é, de facto, verde?  - Temos a noção, quando somos contactados, de que algumas entidades o fazem porque essa lógica faz parte da sua estratégia, enquanto outras têm objectivos menos interessantes para o bem comum. Tentamos distinguir entre uma coisa e outra. Há empresas com as quais não trabalhamos mesmo, a Monsanto [produção de OGM], por exemplo. Mas há sempre o risco de aproveitamento e o risco de sermos acusados de não tomar posição por causa das parcerias. É sempre assim.  - Qual é, neste momento, o principal problema ambiental no País?  - O mau da fita é o consumo exagerado. Somos consumidores, transformamos o que a natureza e as outras espécies nos dão. Não podemos evitar o impacto mas podemos tentar reduzi-lo ao máximo e isso não tem acontecido mesmo em áreas quase insuspeitas. Quando pensamos, por exemplo, em eficiência energética, os televisores hoje são mais eficientes do que o que os meus pais tinham, mas temos uma televisão maior que se calhar gasta o dobro do que gastava a dos meus pais, que era muito pequenina.  - Mas fazer com que as pessoas reduzam o consumo não será fácil...  - Porque as pessoas assumem que é um direito terem aquilo que querem – o carro, a casa cada vez maior e cada vez mais difícil de aquecer, mais coisas, roupas, televisões, computadores... Era importante começar a trabalhar o conceito da suficiência. Não é a questão de voltar às cavernas. É ter a noção de que só podemos consumir assim porque boa parte da população permanece na mais absoluta pobreza.  'ASSOCIAÇÕES SÃO ATÉ MUITO MODERADAS' - A Quercus actua produzindo pareceres e em acções de protesto mais musculadas. Qual é a sua linha?  - Tudo é importante. Em certas situações, se o diálogo já decorre há algum tempo e as entidades não estão despertas, o alerta público pode ser muito importante, na linha da Greenpeace, que não usa a violência.  - Qual é a sua opinião sobre acções como a do movimento que destruiu um campo de milho transgénico? - Não é a nossa linha de actuação. Mas as pessoas têm uma noção errada acerca do movimento ambientalista global. Quando nos classificam como radicais é porque não sabem o que é o movimento ambientalista radical. As associações de ambiente em Portugal são extremamente moderadas até nas posições que assumem. Demonstram capacidade de integrar a realidade.  'NÃO OLHAR APENAS PARA O UMBIGO' - Ter sido mãe há meio ano fê-la mais preocupada em conservar recursos para uso das gerações futuras?  - Não, já era. Para se trabalhar na área do ambiente é fundamental ter a noção de que não podemos olhar só para o nosso umbigo. Se não, estava em casa, acabava o doutoramento mais cedo e podia arranjar um bom emprego e ter mais dinheiro. Essa ideia de que não podemos pensar só em nós tenho-a desde sempre.  PERFIL Susana Fonseca tem 35 anos e está a fazer o doutoramento em Sociologia do Ambiente no ISCTE. É a primeira mulher a assumir a presidência da Quercus, a mais importante associação de defesa do ambiente em Portugal, à beira dos 25 anos. 'É interessante ser a primeira em qualquer coisa mas não é um marco', considera.Fonte: Correio da Manhã
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